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A Festa

Quando a Derivas lançou a sua primeira edição, apresentou uma entrevista exclusiva ao Secretário-Geral da Organização Mundial do Movimento Escutista, Eduardo Missoni, recentemente contratado para as funções. Curiosamente, e ao contrário do que a equipa da Derivas supunha, a entrevista foi dos artigos menos lidos naquela edição. Os leitores, maioritariamente Caminheiros e Dirigentes do CNE, manifestaram, assim, algum desinteresse pela figura do Secretário-Geral e pela pessoa de Eduardo Missoni. Motivo? Talvez o distanciamento entre o nosso cantinho e uma organização mundial que pouco dirá aos Escuteiros e Dirigentes do CNE. Fica o mistério.

Ainda na memória fresca de alguns está a visita recente do mesmo Eduardo Missoni a Portugal, visitando o Fórum de Dirigentes e Caminheiros em Fátima, reunindo-se com as cúpulas do CNE e da AEP, visitando agrupamentos e grupos de ambas as associações, concedendo entrevistas, dialogando com os jovens escuteiros, etc.

No referido Fórum, Missoni pôde discursar perante uma plateia cheia de jovens e adultos, transmitindo a visão de alguém que conhece outros mundos e outras realidades para além do nosso cantinho pequenino. Mundos e realidades que viveu na pele. Mundos e realidades que foi conhecendo nas suas viagens pelo mundo. Discursou sobre o Escutismo e o seu lugar no mundo. Discursou com um entusiasmo invulgar, com uma paixão como poucos seriam capazes. A plateia ouviu-o, bebeu-lhe as palavras, as ideias e a paixão.

Bem… nem toda a plateia. Cá ao fundo da sala, nas duas últimas filas de cadeiras, um grupo de Caminheiros e Dirigentes levava avante uma ruidosa festa, cheia de alegria, risos, gargalhadas, telemóveis, conversas em voz alta, e muito alvoroço. Uma Caminheira com uma carinha larocas parecia cativar, definitivamente, a atenção dos Dirigentes mais velhos, já com idade para serem pais dela. A rapariga, por seu lado, babava-se toda com a atenção que lhes dispensavam os Dirigentes, tendo passado a maior parte do tempo voltada para trás, sentada que estava na penúltima fila. Os outros jovens, encobertos pelo à vontade com que os Dirigentes se divertiam ruidosamente durante o discurso de Missoni, juntavam-se à festa, aumentando a algazarra. Ainda assim, e apesar de os Caminheiros serem claramente em maioria, o ruído mais alto provinha dos poucos Dirigentes, como se estivessem no meio de uma qualquer festa de aldeia, entre copos de cerveja e febras grelhadas. No palco, Missoni (ou Eduardo, como gosta que lhe chamem) continuava a discursar, respondendo também a questões feitas por atentos ouvintes.

A algazarra deste grupo era tanta, que, a determinada altura, tive que mudar-me de posição para uns dez metros mais além, de maneira a que conseguisse escutar as palavras do ilustre convidado. Mesmo assim, já na nova posição, ainda conseguia ouvir a interferência da festa. Não era o único, a avaliar pelos comentários e olhar reprovador de uma Dirigente perto da qual me sentei.

Mas, pior que tratar-se de Dirigentes envolvidos em tamanha festa, nas circunstâncias em que tal acontecia, era quais os Dirigentes em questão! Pela atitude, e num palpite rápido, imaginar-se-iam Dirigentes de uma qualquer aldeia, alheios à importância do convidado de honra, habituados a fazer algazarras em todo o lado e a qualquer hora, sem respeito nem noção, fazendo-se acompanhar do belo do garrafão de tinto. Ou Dirigentes daqueles que entraram ontem para o CNE e que já vão sair amanhã, sem formação moral adequada ou conceitos básicos de educação e cidadania.

Infelizmente, os senhores em questão já estão no CNE há muitos anos. Ocuparam e ocupam cargos e funções com bastante importância na associação, a nível regional e nacional. Habilitações académicas e profissionais também não lhes faltam. O que lhes falta mesmo, mas mesmo, mesmo, mesmo, é educação. Falta-lhes, também, a noção básica de respeitinho. Falta-lhes saber estar. Falta-lhes uns quilos de humildade. Falta-lhes a simples virtude de saber que o que fazem e o que dizem são exemplo para os jovens, quer seja um bom ou um mau exemplo.

Contudo, continuam a ocupar os cargos que ocupam, a comportarem-se de forma tão grosseira, e a ensinarem aos mais novos que é bonito e aceitável estar naqueles preparos quando há um ilustre convidado a discursar.

Vim-me embora a pensar porque é que não lhes toquei no ombro e os chamei à atenção. Vontade não me faltou, confesso. Até para lhes enfiar um chapadão! Mas, não. Mudei-me quando deixei de conseguir ouvir o Missoni. Teria valido de alguma coisa chamá-los à atenção? Provavelmente, não teria valido de nada. Provavelmente, teriam respondido como responderia um trolha qualquer já com os copos. Provavelmente teriam puxado dos seus galões, como se isso lhes desse carta branca para tudo. Mas, a bem dizer, acho que não os chamei à atenção porque, se até aí ainda não tinham percebido o que estavam a fazer de errado, também nunca iriam perceber.

Pedro Monteiro

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