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Disciplina

Num pequeno acampamento, muito pode ser feito pelo exemplo. O chefe vive no meio dos rapazes e é observado por cada um deles, imitado inconscientemente por eles, e, provavelmente, sem ser notado por si próprio.

Se o chefe for preguiçoso, eles serão preguiçosos; se fizer do asseio um passatempo, também será o deles; se for hábil a inventar acessórios de campo, eles tornar-se-ão inventores rivais, e por aí fora.

Mas, que o chefe não faça demasiado daquilo que deveriam ser os próprios rapazes a fazer, antes crie as condições para que eles o façam – “quando queres alguma coisa feita, não o faças por ti próprio” é o lema certo. Quando é necessário dar ordens, o segredo para obter obediência é saberes exactamente o que queres que seja feito e expressá-lo de forma muito simples e muito clara. Se, à ordem, juntares uma explicação do motivo para que queres que aquilo seja feito, então a tarefa será levada a cabo com muito mais disposição e muito maior inteligência.

Se, à ordem e à explicação, juntares um sorriso, a tarefa será feita com entusiasmo – porque, lembra-te, “um sorriso leva duas vezes mais longe que um grunhido”.

Uma palmadinha nas costas é um estímulo mais forte do que uma picada com uma agulha.

Cria grandes expectativas em relação aos teus rapazes e, em geral, eles estarão à altura.

Baden-Powell
Setembro, 1911

Treino de Inverno dos escuteiros

Estou contente por ter recebido já, da parte de alguns comissários, as ideias que propõem para o treino sistemático dos Grupos nos meses de Inverno.

O Inverno não tarda a chegar e, a não ser que planeemos com tempo, descobriremos que o mais certo é que acabe antes que se tenham posto aptos a trabalhar.

Uma sugestão foi que se faça uma revisão aturada de todo o curso dado no “Escutismo para Rapazes”, e penso que esta é uma sugestão muito boa, pois muitos escuteiros e chefes, após lerem o livro, põem em prática as ideias nele contidas consoante o que lhes ficou delas, juntando-lhes outras novas do mesmo teor (que são as que eu gosto de ver), mas sem ligarem muito mais ao livro, sendo que no final uma boa parcela de tópicos menores acaba por ser deixada fora do treino – e apesar de serem pequenos e aparentemente insignificantes, todos têm a sua finalidade. Vejamos, por exemplo, as sugestões sobre a lavagem dos dentes e a feitura de escovas de dentes de campo; é um pequeno ponto que provavelmente já saiu da lembrança em alguns Grupos, mas não deixa no entanto de ser um ponto muito importante à sua maneira; e há centenas de outros como ele. Assim, há pata-tenras que se juntam a Grupos que na sua origem foram ensinados, antes de eles chegarem, de acordo com o manual, mas que só encontraram o treino subsequente e assim sabem pouco do que originalmente se ensinou. Os próprios chefes ao relerem o livro após este intervalo provavelmente verão alguns dos seus tópicos sob uma nova luz. Assim, por razões variadas, pode em muitos casos ser bom voltar aos ensinamentos do livro durante os meses de Inverno.

Baden-Powell
Outubro, 1911

Serviço

Se o Serviço se tornasse o objectivo principal da nossa educação em vez da personalidade, despertaria no mínimo igual interesse entre os alunos, e o resultado seria um mundo muito diferente para vivermos. No outro dia estava à conversa com um funcionário da Liga das Nações, e perguntei-lhe: “Como é que a velha Liga está a andar?” a sua resposta foi: “Vai bem, mas nunca funcionará em pleno até chegar a altura em que os seus membros sejam homens que tenham sido educados como escuteiros.”

Esta resposta conseguiu surpreender-me, e disse: “Quer dizer que acha que eles deviam ir para o campo e cozinhar o seu próprio comer?”, ao que ele respondeu: “Não, não é isso; mas a única escola que conheço que ensina o Serviço como uma regra principal da vida é o Movimento Escutista.

A Liga não deveria ser um mero comité de representantes de diferentes países, cada um velando pelos interesses da sua nação em particular, mas antes um “consórcio” de peritos em aconselhamento para ocasionar o bem da humanidade.”

Assim, aqui temos outro tributo que deve animar o nosso trabalho, uma vez que indica que estamos já no caminho certo.

O nosso ensino faz-se principalmente através do exemplo, e os nossos dirigentes dão-no na perfeição na dedicação patriótica de si ao serviço do rapaz, meramente pelo prazer de o fazer, sem pensar em qualquer recompensa material.

Os jovens são ensinados, começando com o elementar “ajudar a mãe” da parte dos lobitos, passando pela Boa Acção diária e pelo estar preparado para salvar vidas por parte dos escuteiros, até à prática regular de Servir os outros por parte dos caminheiros. O ensino do Serviço não é apenas uma questão de ensino teórico, mas sim o desenvolvimento de duas fases distintas, a saber: a interiorização do espírito de bem-fazer; e o dar oportunidades para que ele se exprima na prática.

Baden-Powell
Janeiro, 1924

 Traduzido e adaptado por Neca e Fernando Alves

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