O que quero da vida?
A semana passada estava à
conversa com uma amiga minha e o assunto acabou por ir dar à
família. Contou-me ela que dentro em breve vai estar com a
sobrinha, rapariga para os seus vinte e um anos, que não via
há muito mas com quem falava amiúde pelo telefone. E como a
conversa tinha começado por como a vida nos leva para longe
do que queríamos aos vinte anos, acabou a contar-me, com mal
disfarçado orgulho, como a sobrinha (que é catalã) estava
a acabar o curso, tinha feito uma pesquisa nas empresas da
sua área profissional, soubera o que era mais procurado e
valorizado curricularmente e se tinha candidatado a um
estágio que lhe parecera importante (algures na América do
Sul); o namorado (que é dinamarquês) já está instalado
profissionalmente mas também sente necessidade de aprender
mais em algumas áreas do seu mester, pelo que se decidiu a
acompanhá-la, matriculando-se num curso pós-graduado nesse
país. Planeiam estar por lá um ano, usando os últimos
meses para trabalhar voluntariamente numa ONG de protecção
às crianças. Depois voltam, instalam-se por sua conta e,
depois de começarem a ter rendimentos estáveis, vão criar
a sua família.
Apeteceu-me perguntar-lhe
Olha lá, eles são escuteiros? mas logo me
contive. Primeiro, porque se o fossem a minha amiga
(escuteira de há muitas eras) já mo teria dito; segundo,
porque os PPV não são invenção nem exclusivo nosso;
terceiro, porque a situação me pareceu invejável mas nada
familiar
E é aqui que a porca torce o rabo!
A nossa missão de
educadores devia obrigatoriamente culminar em jovens adultos
que sabem o que querem da vida e que vão à procura disso
mesmo, construindo o seu próprio futuro e não se limitando
a aceitar o que a vida lhes traga.
Os jovens pioneiros que
passam para o Clã deviam trazer já na sua bagagem
genética escutista a compreensão de que o mundo se
muda e se constrói por nossas próprias mãos. Ao aderir ao
projecto do Homem Novo deviam (todos!) descobrir que também
eles mesmos e a sua própria vida serão aquilo que quiserem.
E os restantes quatro anos em Clã deviam ser
apenas para dar oportunidades de pôr em prática
o seu novo Eu, confrontando-os com incongruências entre o
que são e o que querem ser, dando-lhes ocasião de exercerem
competências, fortificar valores, ajudar-se mutuamente,
servir o próximo, construir o seu caminho na vida
convergente com o caminho da felicidade.
As ferramentas
de que dispomos metodologia da IV, Sistema de
Progresso da IV, Sistema de Clãs (o Sistema de
Patrulhas da IV não, não existe
), Curso
de Chefes de Equipa da IV, CAP da IV foram desenhadas
para e dão resposta a essa finalidade?
O nosso trabalho vai nesse sentido? É isso que fazemos?
São esses os Clãs que temos?
Somos verdadeiramente fontes
de Homens Novos?