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Só II

Uma das lamentações que tenho na minha caminhada escutista é o facto de nunca ter vivido a IVª Secção em pleno.

Ou seja a minha passagem pelos Caminheiros nunca foi aquilo que me parece que devia ter sido.

Por uma diversidade de factores tais como o facto de eu e mais uns quantos termos sido passados dos Pioneiros para os Caminheiros de uma maneira muito pouco natural (havia muito poucos caminheiros e achou-se bem mandar para lá uns pioneiros mais velhos), ou o facto de infelizmente a chefia que nos acompanhou (e foram vários os chefes que por lá passaram) nunca ter sido capaz de montar um projecto com cabeça, tronco e membros, de forma a que pudéssemos perceber o que era aquilo de ser Caminheiro…

Tivemos problemas, chatices, “motins”, enfim acho que pouca coisa não houve ali. Caminheirismo reconheço que houve muito, muito pouco.

No entanto sempre que a malta se reúne para conversar (porque apesar de tudo há grandes amizades que resistem a tudo) quase sempre alguém se lembra “E aquela cena do Rodas?”

O “Rodas”, como era tratado o Rodrigo, era um tipo calado.

Ou melhor calado era favor. Era aquele tipo de rapaz que entrava mudo e saía calado de Outubro a Julho.

E isto durante anos a fio. Muito poucos de nós se podiam orgulhar de dizer que tinham falado com ele mais de 5 minutos. Mas mesmo assim o Rodas ia a todas, nunca faltava.

Acho que a vez em que mais falei com ele foi num final de uma noite da Queima, em Coimbra, onde o encontrei pelas 06h da manhã.

Aquela confusão que era a nossa IVª arrastou a cerimónia da investidura de Caminheiros durante dois anos. Ou porque éramos novos ou não fazíamos as provas, ou, ou, ou…

A malta nessa altura já andava um bocado farta. Até que o dirigente da altura se lembrou de nos propor umas provas para fazer e, se cumpríssemos, faríamos a promessa.

Todos embarcámos na coisa e fizemos as provas. Estávamos ansiosos pela promessa.

Uns dias antes o chefe lá nos perguntou se estávamos preparados.

Claro que todos dissemos que sim.

Todos? Não! Nesse dia o Rodrigo falou! E disse que pura e simplesmente não se sentia preparado.

Foi um choque para todos nós. Então andávamos ali há anos à espera e agora ele dizia não?

Hoje, com a distância emocional que os anos permitem, não tenho dúvidas: aquele rapaz, naquele dia, deu-me a maior lição de Caminheirismo que eu recebi na vida.

Não embarcou no carneirismo, no facilitismo.

Sozinho foi capaz de dizer não a algo que todos queriam muito. Não foi mais um elemento anónimo a fazer a promessa.

E tenho a certeza que quando chegou a altura de ele a fazer (porque a fez) ia certamente muito mais satisfeito consigo mesmo.

Nuno Cardoso

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