TENDAS
MONTADAS
Olhares de longe
Os melhores do mundo
Há poucos dias, no contexto
de uma conversa sobre o Escutismo na Europa, ouvia da boca de
um importante (?) responsável do CNE algo do tipo Sim,
porque o nosso Escutismo devia servir de exemplo para muitas
associações por essa Europa fora
. Não pude
deixar de sorrir, claro; ainda lhe disse que achava que há,
de facto, muitas coisas que fazemos bem mas, se calhar,
outras tantas em que podíamos melhorar se, mesmo tendo em
conta as diferenças culturais, soubéssemos aprender com os
outros. Suspeito que nem me ouviu.
É muito fácil encontrar
este tipo de mentalidade no Escutismo Português e no CNE em
particular. E não tenho qualquer pejo em dizer que já foi a
minha também. Se recordar as minhas primeiras
participações em eventos internacionais não posso deixar
de me sentir um pouco embaraçado pela postura um bocado
fanfarrona, quase sobranceira, com que defendia
tudo o que se fazia no CNE, em detrimento de práticas que
percebia de outras associações. Nós estávamos certos,
eles estavam errados. Pura ignorância, reconheço hoje.
Nos últimos anos tenho tido
a felicidade de experimentar um intenso contacto
internacional. Em particular nos últimos 3, como membro do
Comité Europeu do Escutismo, tenho tido a oportunidade de
conhecer, em maior ou menor profundidade, realidades de
países dos 4 cantos da Europa. E de me fascinar com aspectos
particulares, maiores ou menores, que vou encontrando em
muitos deles:
- A produção maciça de
materiais de apoio pedagógico de uma das
associações espanholas (e a forma como os
voluntários são envolvidos na mesma)
- A impressionante,
objectiva e corajosa abordagem estratégica da
associação inglesa (novos programas, novos
uniformes, nova imagem
) que fez inverter uma
tendência de declínio que se verificava
(nomeadamente no efectivo)
- A forma inclusiva como
algumas minorias são tratadas pelo escutismo
eslovaco
- A capacidade
organizativa e de sistematização dos suecos (que
terá sido um dos argumentos para que a Suécia tenha
sido escolhida para organizar o Jamboree Mundial de
2011)
- O nível de reflexão e
a profundidade de discussão (nomeadamente ao nível
pedagógico) de italianos ou franceses, traduzidos em
inúmeros fóruns com contributos de gente da sociedade
civil
- A juventude dos membros
dos órgãos de gestão nas associações belgas e as
estruturas organizativas flexíveis que estas
conseguiram implementar
- A criatividade dos
holandeses no encontrar de soluções para o corte
total de apoio financeiro do estado
-
Não, estes (e outros) não
são os melhores do mundo (nem eles se consideram
assim). Há muitos domínios em que, na minha opinião, o
Escutismo Português, e, nele, o CNE, têm maior sucesso (no
trabalho com adolescentes, no enraizamento local, no
equilíbrio do efectivo, na preservação de uma certa
mística própria, na aposta na vivência de valores
).
Pergunto-me é muitas vezes Onde seríamos capazes de
chegar se tivéssemos a capacidade de ouvir e ver? De
aprender com os outros?. Se tivéssemos a humildade de
nos questionar e a coragem de mudar onde fosse preciso.
E não se pense que isto é
um problema quando estão em causa apenas países (ou
associações). Dentro da nossa associação, região,
agrupamento (!) não somos também assim? Quantas vezes, de
forma mais ou menos explícita, nos confrontamos com esta
atitude de A minha Região/Agrupamento/Unidade é a/o
melhor!? Talvez devêssemos, mais frequentemente, dar
uma oportunidade aos outros
e a nós próprios. Estar
mais disponíveis para ouvir e ver, sem juízos preconcebidos
e com a capacidade analítica de saber reconhecer o bom, onde
ele existe.
Os melhores do mundo?
Existem, sim, mas, para mim, não são os que têm mais
dinheiro, ou mais efectivo, ou os uniformes mais vistosos e
engomados, ou maior número de regulamentos, ou os manuais
mais volumosos
São antes aqueles que partilham
desinteressadamente os seus sucessos e também os seus
fracassos, os que se predispõem a ouvir (mesmo que depois
não concordem), os que sabem que têm para aprender, os que
não têm vergonha de perguntar ou pedir ajuda, os que estão
disponíveis a experimentar
São os que sabem que vale
a pena ser sempre melhor e que isso é um caminho
contínuo. Há quem lhe chame excelência.
João Armando
Gonçalves