Derivas.org
Revista periódica de cariz escutista_
Menu
Quem somos
Estatuto Editorial
.: Edições
Edição actual
Edição 01
Edição 02
Edição 03
Edição 04
Edição 05
Edição 06
Edição 07
Edição 08
 
.: Versões PDF
Edição 01
Edição 02
Edição 03
Edição 04
Edição 05
Edição 06
Edição 07
Edição 08
 
 

Inscreve aqui o teu e-mail para que possamos avisar-te quando sair a próxima edição da Derivas:

WWW.DERIVAS.ORG
   
Derivas.org

Edição 08

Imprimir
Derivas.org

TENDAS MONTADAS

Olhares de longe

Os melhores do mundo

Há poucos dias, no contexto de uma conversa sobre o Escutismo na Europa, ouvia da boca de um importante (?) responsável do CNE algo do tipo “Sim, porque o nosso Escutismo devia servir de exemplo para muitas associações por essa Europa fora…”. Não pude deixar de sorrir, claro; ainda lhe disse que achava que há, de facto, muitas coisas que fazemos bem mas, se calhar, outras tantas em que podíamos melhorar se, mesmo tendo em conta as diferenças culturais, soubéssemos aprender com os outros. Suspeito que nem me ouviu.

É muito fácil encontrar este tipo de mentalidade no Escutismo Português e no CNE em particular. E não tenho qualquer pejo em dizer que já foi a minha também. Se recordar as minhas primeiras participações em eventos internacionais não posso deixar de me sentir um pouco embaraçado pela postura um bocado “fanfarrona”, quase sobranceira, com que defendia tudo o que se fazia no CNE, em detrimento de práticas que percebia de outras associações. Nós estávamos certos, eles estavam errados. Pura ignorância, reconheço hoje.

Nos últimos anos tenho tido a felicidade de experimentar um intenso contacto internacional. Em particular nos últimos 3, como membro do Comité Europeu do Escutismo, tenho tido a oportunidade de conhecer, em maior ou menor profundidade, realidades de países dos 4 cantos da Europa. E de me fascinar com aspectos particulares, maiores ou menores, que vou encontrando em muitos deles:

  • A produção maciça de materiais de apoio pedagógico de uma das associações espanholas (e a forma como os voluntários são envolvidos na mesma)
  • A impressionante, objectiva e corajosa abordagem estratégica da associação inglesa (novos programas, novos uniformes, nova imagem…) que fez inverter uma tendência de declínio que se verificava (nomeadamente no efectivo)
  • A forma inclusiva como algumas minorias são tratadas pelo escutismo eslovaco
  • A capacidade organizativa e de sistematização dos suecos (que terá sido um dos argumentos para que a Suécia tenha sido escolhida para organizar o Jamboree Mundial de 2011)
  • O nível de reflexão e a profundidade de discussão (nomeadamente ao nível pedagógico) de italianos ou franceses, traduzidos em inúmeros fóruns com contributos de gente da “sociedade civil”
  • A juventude dos membros dos órgãos de gestão nas associações belgas e as estruturas organizativas flexíveis que estas conseguiram implementar
  • A criatividade dos holandeses no encontrar de soluções para o corte total de apoio financeiro do estado

Não, estes (e outros) não são os “melhores do mundo” (nem eles se consideram assim). Há muitos domínios em que, na minha opinião, o Escutismo Português, e, nele, o CNE, têm maior sucesso (no trabalho com adolescentes, no enraizamento local, no equilíbrio do efectivo, na preservação de uma certa mística própria, na aposta na vivência de valores…). Pergunto-me é muitas vezes “Onde seríamos capazes de chegar se tivéssemos a capacidade de ouvir e ver? De aprender com os outros?”. Se tivéssemos a humildade de nos questionar e a coragem de mudar onde fosse preciso.

E não se pense que isto é um problema quando estão em causa apenas países (ou associações). Dentro da nossa associação, região, agrupamento (!) não somos também assim? Quantas vezes, de forma mais ou menos explícita, nos confrontamos com esta atitude de “A minha Região/Agrupamento/Unidade é a/o melhor!”? Talvez devêssemos, mais frequentemente, dar uma oportunidade aos outros…e a nós próprios. Estar mais disponíveis para ouvir e ver, sem juízos preconcebidos e com a capacidade analítica de saber reconhecer o bom, onde ele existe.

Os “melhores do mundo”? Existem, sim, mas, para mim, não são os que têm mais dinheiro, ou mais efectivo, ou os uniformes mais vistosos e engomados, ou maior número de regulamentos, ou os manuais mais volumosos… São antes aqueles que partilham desinteressadamente os seus sucessos e também os seus fracassos, os que se predispõem a ouvir (mesmo que depois não concordem), os que sabem que têm para aprender, os que não têm vergonha de perguntar ou pedir ajuda, os que estão disponíveis a experimentar… São os que sabem que vale a pena “ser sempre melhor” e que isso é um caminho contínuo. Há quem lhe chame “excelência”.

João Armando Gonçalves

WWW.DERIVAS.ORG
   
Derivas.org

Edição 08

Imprimir
 
Copyright
copyright (c) Derivas 2004-2007 - contacto(at)derivas.org