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TENDAS MONTADAS

Marujal

Foi há poucos meses atrás. Deslocava-me de Coimbra para a costa a Sul da Figueira da Foz procurando um atalho pela margem Sul do Mondego. A ideia era chegar o mais rápido possível à N109, dirigindo sempre em direcção ao mar. Não seria difícil, julgava eu. Mas a verdade é que sucediam-se cruzamentos, indicações vagas, curvas e mais curvas. Instalou-se a dúvida e a preocupação com a hora da chegada ao destino. De repente salta-me à vista um vocábulo conhecido: Marujal.

O meu pensamento retrocede ao Verão de 1985, eu era então Sénior, Explorador Sénior, e decorria o acampamento regional de Seniores da Região de Coimbra. Vêm-me à lembrança em catadupa muitas recordações desses dias. Primeiro são os rostos da malta da minha equipa, depois as construções de três dias árduos à chapa do Sol e não tarda atropelam-se as memórias dos dias, episódios deliciosos de aventura e de alegria.

Já passaram mais de 21 anos e há momentos que recordo perfeitamente. Alguns não são mais do que histórias para relembrar nos encontros de antigos escuteiros. Mas há aspectos em que valerá pena pensar de novo. Escolho um deles: o inter-patrulhas.

O inter-patrulhas, que tanto assusta alguns dirigentes e que sempre levanta polémica nos eventos regionais, foi um extraordinário incentivo à prestação da minha equipa (Francelho) naquele regional. E, de uma forma ou de outra, moldou sobremaneira a actuação de todos os que ali estiveram, mesmo aqueles que repetidamente se diziam “estar a marimbar” para a classificação…

Recordo-me de dois casos interessantes, não tão antagónicos como me pareceram na altura.

Logo no início da avenida principal de campo, do lado direito, quando se começava a descer estepe abaixo, estava acampada uma equipa da cidade de Coimbra, de quatro elementos. O curioso nesta equipa era o facto do seu guia ser realmente fora de série, pelo menos naquilo que contava para a avaliação exterior, quer dos chefes, quer nossa. O rapaz era uma máquina de tal forma eficiente que levou praticamente sozinho a equipa à vitória final. E sendo o seu forte os aspectos que exigiam mais capacidade intelectual, não deixámos de o ver a fazer amarrações ou a escavar buracos perante alguma inoperância dos seus elementos! Um dos seus maiores trunfos terá sido a extraordinária preparação que fez em termos de imaginário chegando mesmo a levar de casa uma boa parte do relatório do Hike já redigida.

Nossos vizinhos a meio do campo, no lado esquerdo da avenida, uma equipa dum agrupamento da beira-mar optou por construir uma espécie de camarata, uma enorme estrutura monobloco, coberta por uma grande lona, que ocupou a parte mais direita do seu campo e lhes permitiu evitar um dia de pauladas nas silvas e no mato onde todos os outros tiveram de se recolher por força da inclemência do Sol… Formavam uma daquelas equipas onde há discussão a toda a hora mas onde todos são protagonistas, para o melhor e para o pior… Não ganharam prémio nenhum, é claro.

Não sei ao pormenor quais os aspectos que terão merecido a atenção da chefia de campo para a tal classificação inter-patrulhas. Sei que, no geral, nos pareceu justa a classificação e sei que nos sentimos muito orgulhosos de ganhar aquele que na altura achávamos ser o nosso campeonato, o das tais construções de três dias ao sol. Mas também me recordo como achámos todos que os nossos vizinhos não mereciam ter sido desclassificados no concurso das construções só porque a sua opção não respeitava o enunciado no campo das “construções obrigatórias”. Na verdade, a ideia deles era a mais inteligente naquele cenário de calor e de silvas da altura dos Sobreiros, além de ser de tal forma próxima do que verdadeiramente entusiasmava a malta que não faltariam visitas “de estudo” à sua camarata de campo! E é claro que hoje valorizo bem mais o esforço conjunto daquela equipa do lado do que o extraordinário trabalho individual do guia da primeira, lá no cimo da avenida.

Mas não são os eventuais erros da chefia de campo que me importa reter. Bem mais interessante é repararmos que quer a minha equipa, quer as outras duas que aqui recordei, a exemplo de praticamente todas as outras, lutaram por um objectivo claro, palpável e, como é importante isto, atraente. Mesmo aquela equipa que ficou fora duma corrida em que tanto havia apostado, a do concurso das construções, recebeu o seu prémio: o reconhecimento dos seus pares! E esse prémio teve um sabor extraordinário porque foi conseguido num contexto de disputa.

Não há que ter medo deste tipo de disputa, nem mesmo a nível de eventos regionais ou até nacionais desde que tomadas as devidas cautelas para não fazer destes concursos umas enormes amálgamas de correrias e questionários disparatados. Nas grandes actividades os parâmetros a ponderar não podem ir à minúcia e deverão permitir vários prémios, porque há sempre patrulhas ou equipas a lutar em “campeonatos” específicos. O universo de disputa tem de ser o mais próximo possível, isto é, subcampo e não todo o campo, por exemplo. É evidente que a clareza das regras e o bom senso na avaliação também são muito importantes, mas fundamental mesmo é não deixar o inter-patrulhas resvalar para um gigantesco concurso do melhor do universo…

Uma actividade não pode ser pensada nem organizada em função dum inter-patrulhas, mas um concurso destes pode ser um bom meio para atingirmos os objectivos pedagógicos duma actividade.

Faço a curva na estrada e surge em frente o velho edifício que dera guarida à chefia e à intendência de campo. Está mais velho e degradado. Lembro-me de subir os degraus de pedra e olhar o nosso campo ali ao pé e o Mondego ao longe. Não tenho tempo para parar nem a lama convida a percorrer o acesso ao terreiro. Sigo sem receios, afinal estou no bom caminho.

Como estava, junto com os outros francelhos, em 1985!

José Carlos Santos

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