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Lição de um amigo

Participei de um workshop intitulado: “Aceitar a morte, viver o luto, abraçar a vida”. Coisa tão certa, de que nos vamos afastando e recusando a encarar à medida que crescemos... porque a vamos complicando. Porque enquanto adultos, na nossa sociedade, observamos a morte como o fracasso do nosso projecto de modernidade, a privação da longevidade conquistada.

Inevitavelmente recordei o Bruno, amigo e escuteiro no meu agrupamento, que cresceu connosco e que morreu precocemente num acidente de moto. E as fases do luto que ali apresentaram... revi-as em mim. É que a morte, como a vida, é uma experiência sentida na primeira pessoa.

Tínhamos 17 anos. Lembro aquela última actividade em que estivémos juntos em campo, naquela pedregosa caminhada nas margens do Guadiana, em conversas e partilhas que nos atrasaram... lembrança que alimento numa fotografia que nos tiraram no caminho, bem ao longe.

E relendo os relatos que fiz da conversa (que escrevi uns meses depois, após o acidente, para não me esquecer)... sorrio... pela infantilidade nossa que ali registei. É tão estranho não conseguir que a memória dele tenha crescido comigo, como eu, e que na recordação que guardo ele passasse a ser infantil. Quando passámos para os caminheiros, quando fizémos a nossa promessa forçámos a que ele “estivesse” também. Investimo-lo no cemitério com um lenço gigante, construído em clã, numa vigília em que ficámos toda a noite acordados. E continuámos a forçar que fizesse caminhada connosco, mas foi perdendo o sentido... porque na nossa memória ele não cresceu... e continuava a ser o miúdo dos 17 anos... e nós íamos ficando mais velhos, com novas experiências e outros interesses. E acho que tivémos, que tive, dificuldade em perceber o “arrasto”. Eventualmente por culpa. Por sentir que não “o trazer no mesmo caminho” era deixá-lo para trás. Por não perceber que o caminho passou a ser diferente... e não perceber que não era errado assim o assumir.

Tantas vezes que amarramos as nossas expectativas e projectos a pedaços do caminho e esquecemos que a vida continua a acontecer... e hoje, lembrando o Bruno, revejo o bom que é ter memórias que nos vão desenhando os caminhos e o que podemos aprender com as suas subidas, curvas e buracos... e que é importante assumir as mudanças que a morte nos impõe, para podermos continuar a crescer em vida de forma livre.

A grande lição que a morte nos dá... é o valor que a vida tem... e que o tempo que a vida nos dá para dar e receber, é tanto quanto para deixarmos de dar ou de receber. Conta o que fica em nós e sobretudo o que gravamos nos outros (tão simples... e passo a vida a esquecer-me disto!).

A experiência de morte do Bruno foi uma lição de vida com que continuo a aprender... e como quase todas as importantes lições que tenho tido, foi aqui que a vivi, nesta minha expressão de vida que é ser Escuteira. E o puto Bruno, um pioneiro amigo, continua por aqui...

Nuchinha

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